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05 01 2026

A Ditadura do “Janeiro Novo”: Por que a Ansiedade de Início de Ano é uma Injustiça com Você?

Após um longo período de ausência, nobres leitores, resolvi voltar a escrever pra vocês. E o que é mais simbólico do que falar da ditadura do Janeiro novo? Pois é… ainda estamos de férias mas nossa cabeça já está naquilo que devemos fazer (supostamente) e já fazendo previsões horríveis de como será o ano, principalmente porque você olha pra você e fala: “como vou fazer tudo que quero, se pra sair da cama eu preciso de um guindaste?”

Janeiro é, talvez, o mês mais cruel do calendário psicológico. Existe uma pressão silenciosa, mas ensurdecedora, que nos empurra para uma espécie de “renascimento obrigatório”. É como se, ao soar da meia-noite do dia 31, fôssemos todos submetidos a um reset de fábrica. A cultura, as redes sociais e, principalmente, a nossa própria mente, começam a exigir uma performance que muitas vezes ignora a realidade biológica e emocional de quem ainda está cansado do ano que passou.

Se você sente um aperto no peito ao olhar para a agenda em branco, ou uma pontada de culpa por não estar com aquela “energia de foguete” que postam no Instagram, este texto é para você. Vamos conversar sobre por que essa ansiedade acontece e, principalmente, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode nos ajudar a enxergar que o problema não é você — é a lente que você está usando para se enxergar.

O Tribunal de Janeiro: Onde Você é o Único Réu

Uma pessoa apontando o dedo para si mesma, se culpando por não estar produzindo do jeito que deveria

Imagine que você entra em uma sala de tribunal. No banco dos réus, está você. O promotor é a sua mente ansiosa, armada com uma lista de “metas não cumpridas” de 2025 e uma lista de “deverias” para 2026. O juiz? Também é você, mas na sua versão mais severa e menos realista.

A ansiedade de início de ano nada mais é do que o resultado dessa audiência injusta. Nós tendemos a olhar para o futuro não como uma oportunidade, mas como uma dívida. “Eu deveria estar mais focado”, “Eu deveria já ter emagrecido”, “Eu deveria estar ganhando mais”. O problema desses “deverias” é que eles são imperativos categóricos que não aceitam a humanidade. Eles não levam em conta que você teve problemas familiares, que o trabalho foi exaustivo ou que, simplesmente, você é um ser humano e não um algoritmo de produtividade.

Na TCC, chamamos isso de Crenças Intermediárias. São regras que criamos para nós mesmos e que, quando não cumpridas, ativam uma visão negativa de nós mesmos. O pensamento é: “Se eu não começar o ano com tudo, eu sou um fracasso”. Percebe a injustiça? Você reduz toda a sua complexidade a uma semana de janeiro.

A Metáfora do Pote de Água: Entendendo seu Limite

Pote de água enchendo representando como nosso estresse vai aumentando ao longo do ano

Gosto sempre de usar a analogia do pote de água nas nossas conversas. Imagine que a sua capacidade emocional é um pote. Ao longo do ano passado, você foi enchendo esse pote com estresse, decisões, perdas e rotina. Em dezembro, o pote estava na borda.

Aí chega janeiro e a sociedade espera que você esvazie esse pote num passe de mágica e comece a enchê-lo com “novos projetos”. Mas a física da mente não funciona assim. Se você tenta colocar mais água em um pote que ainda está cheio do cansaço do ano anterior, ele vai transbordar. Esse transbordo é a ansiedade. É o seu corpo e sua mente dizendo: “Não cabe mais nada agora, precisamos de espaço”.

O erro é achar que o transbordar da água é um sinal de fraqueza. Não é. É apenas um sinal de limite. O início do ano não deveria ser sobre colocar mais coisas no pote, mas sobre filtrar o que sobrou no fundo e entender o que realmente merece ser mantido ali dentro.

As Lentes Embaçadas: Distorções Cognitivas de Ano Novo

As Lentes Embaçadas: Distorções Cognitivas de Ano Novo

A nossa mente ansiosa adora pregar peças. Ela usa "atalhos" de pensamento que, no final, só servem para nos deixar mais tristes.

A nossa mente ansiosa adora pregar peças. Ela usa “atalhos” de pensamento que, no final, só servem para nos deixar mais tristes. Veja se você se identifica com algum desses padrões neste início de mês:

  1. Pensamento Tudo ou Nada (Dicotômico): “Se eu não organizar toda a minha vida financeira e pessoal até o dia 15 de janeiro, o resto do ano será um desastre”. É a política do “8 ou 80”. Ou você é perfeito, ou é um desastre. Não existe o meio-termo, onde a vida realmente acontece.
  2. Catastrofização: Você olha para a lista de tarefas e pensa: “Eu nunca vou dar conta de tudo isso. Vou ser demitido, vou fracassar, minha saúde vai colapsar”. Você pega um pequeno desafio e o transforma em um apocalipse pessoal.
  3. Desqualificação do Positivo: Você ignora tudo o que conseguiu manter de pé no ano passado e foca apenas no que “falta”. É como olhar para uma parede recém-pintada e focar apenas no pequeno risco de giz no canto.

Quando permitimos que essas distorções guiem nosso início de ano, criamos um estado de alerta constante. O corpo entende que existe uma ameaça real — quando, na verdade, a “ameaça” é apenas um pensamento mal calibrado sobre o futuro.

O Antídoto: Como “Fatiar o Elefante” sem se Engasgar

Duas crianças comemorando ter alcançado alguma vitória ou objetivo, felizes e confiantes

Se a ansiedade nasce da visão da montanha inteira, a calma nasce de olhar para o próximo passo. Na clínica, costumamos dizer que ninguém sobe uma escada de dez metros em um único salto; a gente sobe um degrau por vez. Mas o ansioso de janeiro quer estar no topo da escada antes mesmo de amarrar os sapatos.

Para combater essa visão negativa e injusta sobre si mesmo, precisamos de uma estratégia de ativação comportamental. Em vez de focar na “Grande Mudança de Vida de 2026”, que tal focar na “Pequena Melhora de Hoje”?

Se a sua meta é “ser mais organizado”, a ansiedade vai te travar porque “ser organizado” é abstrato e gigante. Agora, “organizar a gaveta de meias hoje às 14h” é concreto. O cérebro não se assusta com a gaveta de meias. E, quando você fecha aquela gaveta, você envia um sinal para o seu sistema cognitivo: “Eu sou capaz de realizar o que me proponho”. É assim que a gente reconstrói a autoeficácia, um pequeno tijolo por vez.

Substituindo o “Eu Deveria” pelo “Eu Gostaria”

Aqui está uma ferramenta poderosa de reestruturação cognitiva para você usar agora mesmo. Pegue sua lista de resoluções e faça uma substituição gramatical que muda tudo no seu cérebro.

O “Eu deveria” é um carrasco. Ele carrega uma punição implícita: se você não fizer, você é falho. O “deveria” gera culpa, e a culpa gera paralisia. Já o “Eu gostaria” ou “Seria bom se” é um convite. Ele abre espaço para a possibilidade e, mais importante, para a falha humana.

  • “Eu deveria ser mais produtivo” vira “Eu gostaria de terminar essa tarefa hoje, mas se não der, eu retomo amanhã”.

Percebe a diferença de pressão arterial no pensamento? Você não está sendo negligente; você está sendo realista. Ser realista não é ser preguiçoso; é ser justo com as suas condições atuais.

A Injustiça da Comparação: O Seu Bastidor contra o Palco do Outro

Uma das maiores fontes de ansiedade no início do ano é a comparação social, potencializada pelas telas. Você está aí, de pijama, lidando com boletos de janeiro, o IPVA batendo à porta e aquela sensação de cansaço, enquanto abre o celular e vê alguém postando fotos de um “planejamento épico” em uma praia paradisíaca.

A distorção aqui é óbvia, mas o nosso cérebro cai nela toda vez: você está comparando o seu bastidor (com toda a bagunça, incerteza e cansaço) com o palco do outro (editado, filtrado e selecionado).

Essa comparação é injusta. É como comparar um filme bruto, antes da edição, com o trailer de cinema de outra produção. A ansiedade prospera nesse terreno porque ela te diz que “todo mundo está andando, menos você”. A verdade clínica? Está todo mundo lidando com o próprio “pote de água” transbordando. Uns escondem melhor que outros, só isso.

Exercício Prático: O Inventário das Realidades

Para encerrar este artigo, quero te convidar a fazer um exercício que foge das “listas de desejos” tradicionais. Vamos fazer um Inventário das Realidades.

  1. O que eu realmente tenho hoje? (Tempo disponível, energia física, recursos financeiros).
  2. O que é inegociável? (Minha saúde mental, meu sono, o tempo com quem eu amo).
  3. O que eu posso deixar para Fevereiro? (Sim, você tem permissão para adiar o início de uma meta se o seu corpo ainda estiver pedindo descanso).

Janeiro não é uma corrida de 100 metros. É o início de uma maratona de 365 dias. Se você der um tiro de velocidade agora, vai faltar fôlego em março.

Conclusão: Seja o Seu Melhor Amigo, Não o Seu Pior Chefe

Uma pessoa aprende a tratar a si mesma com gentileza e compreensão, ao invés de cobranças irreais e injustas

A grande lição da Terapia Cognitivo-Comportamental para este início de ano é a autocompaixão. E veja bem, autocompaixão não é “pena de si mesmo”. É tratar a si mesmo com a mesma justiça e bondade que você trataria um amigo querido que estivesse passando pelo que você está passando.

Se um amigo te dissesse: “Nossa, estou me sentindo ansioso e cansado com esse começo de ano”, você diria a ele: “Pois é, você é um fracasso, deveria estar produzindo mais!”? Provavelmente não. Você diria: “Calma, é normal se sentir assim, o ano está só começando, respeita o seu tempo”.

Então, por que você diz o contrário para si mesmo?

O ano de 2026 vai acontecer de qualquer jeito, independentemente da sua ansiedade. A diferença está em como você vai caminhar por ele: chicoteando-se a cada tropeço ou estendendo a mão para si mesmo e seguindo em frente, um passo de cada vez, de forma realista, honesta e, finalmente, dando a si mesma o valor que merece pelo que faz, não pelo que deveria fazer.

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